Primeira vez

Monday, October 26, 2009
Posted by UD

seus olhos eram pequenos, como o de esquilos.


o nariz se projetava pra frente, quase como se quisesse engolir o queixo.

mas ainda assim, havia uma beleza indiscutível em sua presença.

talvez fosse a boca, que se abria de quando em quando, deixando entrever os pequenos e perolados dentes brancos.

mas não, ela era mais bonita que a soma de suas partes.

normalmente, alguém como eu não falaria com uma mulher como ela.

mas esse não era um dia normal, e após alguns minutos de auto-terapia na frente do espelho do banheiro caminhei até ela e me sentei a sua mesa.

a conversa foi boa, sem assuntos bobos e com quase nenhuma intervenção dos silêncios constrangedores.

estávamos em ritmo afinado, no entanto algo me parecia estranho.

era como se tudo estivesse dando certo demais.

ela era bonita demais, simpática demais, e o que mais me intrigava, estava se interessando demais.

por fim decidi ignorar meus instintos e persistir, afinal na minha situação eu não tinha como ignorar uma mulher como aquela, e ela se tornava mais irresistível a cada segundo.

a noite se estendeu e depois de alguns drinks horríveis que pareciam lhe agradar, eu a convidei para irmos a um lugar mais reservado.

ela aceitou de bate pronto, o que me deixou um pouco desconfiado, no entanto alguma coisa nela faziam meus sentidos sobreporem minha razão.

no carro ela se afastou um pouco, agarrava sua pequena bolsa e olhava pela janela, se mantinha calada, talvez estivesse com sono pensei, o que facilitaria os meus planos.

chegamos a minha casa por volta de 20 minutos, e eu abri a porta para ela descer, junto a suntuosa entrada da mansão.

olhou ao redor sem admiração, e teceu comentários robóticos sobre o tamanho e beleza do lugar.

entramos e ela se despiu, de costas pra mim, deixando seu vestido prateado cair ao chão, continuando a andar pelo corredor da mansão.

me lembrava uma propaganda de um perfume caro e desprezível que vira um dia na tv.

caminhei até ela com passos um pouco acelerados de ansiedade, era chegado o momento pelo qual esperava.

meu pai já havia me explicado todo o ato, e dizia que nada deveria estar em minha mente senão minha plena satisfação.

mas eu não podia me apressar e estragar tudo, tinha que agir com calma e precisão, afinal já prolongara em demasia a minha primeira vez para desperdiça-la com bobagens.

coloquei a mão delicadamente sobre seu ombro, e ela se virou.

foi então que ouvi o disparo, e uma bala me acertou bem no centro do pescoço.

cai pra trás, ferido, e ela sorriu.

carregava nas mãos uma pequena pistola, dessas prateadas de mulher, que tirara da diminuta bolsa.

disse que eu ia morrer, e que ia pagar pelo que fiz a sua irmã.

eu nunca fiz nada a irmã de ninguém eu disse e ela atirou denovo, dessa vez acertando o meu peito.

não era assim que era pra ser eu disse, ela devia ser dócil e sensual.

essa era a minha primeira vez, argumentei, enquanto balbuciava sangue.

mais um disparo, no braço, isso não poderia continuar por muito tempo.

ela suspirava, caminhando em minha direção com a arma apontada, me chamando de monstro.

perguntou se doía, os tiros.

eu sorri e perguntei por que ela usava balas de prata.

ela se incomodou e disparou denovo, e denovo.

até que a arma fez um click, vazia.

me levantei e arrumei meu paletó, sorri pra ela, o sangue caia em pequenos rios dos buracos de bala.

ela tentou correr, mas em dois segundos eu a alcancei, segurando seu braço pra trás do corpo.

shh, eu disse, perto do seu ouvido.

ela chorava, disse que não era assim que as coisas deveriam ser, que a prata deveria ter me matado.

eu sorri e disse que ela tinha errado de monstro, e então bati sua cabeça contra a parede e ela desmaiou.

banhei seu corpo nú com água e petálas de rosa, limpando quaisquer sujeira acumulada ao longo de nossa breve disputa.

a temperei com azeite e sal, esfregando bem para que entrasse em sua carne macia.

lhe arranquei os braços, servindo, como manda a tradição, um para mim e um para o meu pai.

o gosto era incrível, infinitamente melhor que qualquer carne enlatada que havia comido em toda minha vida.

meu pai me olhava orgulhoso, do outro lado da mesa, em seu rosto um sorriso jovial de patriarca que ensinou bem o seu filho.

ainda hoje eu converso com sofia, esse é seu nome, sofia.

a mantenho viva a mais de um mês já, presa em meu porão, sem braços e com depressão.

deixo-lhe os pés em banho-maria, com mexilhões sal e vinagre, seguindo uma receita de família.

gosto dela, e gosto ainda mais de saber que o resto do seu corpo é todo meu, sem divisões respeitosas com meu pai.

ela chora e me pede pra ir embora, eu desconverso.

digo que teremos ainda mais alguns  maravilhosos jantares  juntos.

e ela dorme, seu cheiro ainda me encanta, seu gosto é o que me motiva.

tenho medo de pensar no dia em que terei acabado com a minha sofia.

é uma pena não se poder plantar humanos.

ela daria uma colheita excelente.

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