da minha varanda, a vista é limitada.
décimo terceiro andar, octagésima nona residência.
números são reconfortantes depois de tanto tempo.
ha trinta anos podia-se ver a praça.
meu programa noturno era me debruçar sobre o para peito, me entregando a sua simples estética e a brisa da noite calma de tempos passados.
era ali que ela lia pra mim.
histórias incríveis sobre pessoas comuns.
haviam risos, apreensão e conhaque.
começo, meio, e principalmente o fim.
nunca a considerei minha amante e, por mais que ocasionalmente, fizessemos amor, ela era mais que mera companhia carnal.
de certa forma, me servia de tutora, sempre atarefada, dando me uma sensação de candura com seu sorriso imenso.
a maioria das pessoas não se permite agradar por sua silenciosa presença, que sempre se faz notada, mesmo quando ignorada.
para mim, a situação é um pouco diferente.
desde sempre, nunca fui apegado ao tempo, e o próprio parece ter se esquecido de mim, fazendo desta singela senhora, minha única companhia duradoura.
13 mil anos, 850 casamentos, doze milhões setecentos e quarenta e nove mil romances lidos, quatro milhões oitocentos e sessenta e sete filmes vistos e somente um objetivo, unir-me a ela de forma definitiva.
me apavoro ao confrontar minha impossibilidade orgânica de consumar tal sonho.
no entanto, ainda me lembro dos seus caprichos e cafunés, desejando-os com maior intensidade ao longo dos séculos.
ela parecia se sentir a vontade ao meu lado, e apesar de minha condição lhe parecer uma rejeição automática a sua presença, nós eramos bem unidos.
os ponteiros se mexiam, e de um tempo pra cá, a situação fugira do controle.
foi desde então que suas visitas passaram a diminuir.
seu interesse inicial agora me parecia apático. seus sorrisos largos, vazios.
as histórias não eram mais incríveis e o conhaque agora era regado a discussões cada vez mais frequentes.
o desfecho era inevitável, e ela se afastou, deixando-me a contemplar seu reflexo vazio nas manchetes de jornal, que pingavam tinta vermelha.
era o fim dos meus sorrisos.
era o início de minha rotina, regada a TV paga e a comida congelada.
mas se é fato que em todo fim de jornada ela sempre se apresenta, eu me ponho a esperar.
de noite, me banho, me perfumo e me visto com minhas melhores roupas.
sentado na varanda, dois copos de conhaque encarando minha solidão.
a brisa já não é mais suave, e os carros no asfalto parecem me dizer que ela não voltará.
após mais um gole, só me resta esperar.
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