tesouros de plástico - #01

Wednesday, March 25, 2009
Posted by UD

os faróis passavam sem percebê-la, formando feixes de luz continua que coloriam de vermelho e branco a noite que chegava



o vento sorria e o já distante sol ainda a deixava observar a agradável visão de seu reflexo detrás dos prédios distantes


seus pés balançavam, pendendo diante do pequeno abismo de concreto a sua frente.


seus braços tencionados ao lado do tronco, as mãos se agarrando ao concreto do para-peito, como uma âncora.


dessa distância, fica difícil dizer, mas eu imagino que sorria.


calculo meus passos, me aproximando de forma casual, transformando pouco a pouco o borrão de sua silhueta em uma imagem com mais definição.


os cabelos curtos lhe escondiam os desejos, sendo acariciados pela brisa vinda dos carros que continuamente se deixavam passar na rodovia abaixo.


seus sonhos caiam em profusão, rapidamente sendo absorvidos e atropelados pela corrente de movimento contínuo que se dava abaixo.


O ar que lhe enchia os pulmões pesava sobre seus ombros, dilatando seus sentimentos de tal forma que a fazia sentir-se simultaneamente flutuando e sufocada.


agora já consigo ver claramente, o sorriso tímido em seu rosto, algo raro se tratando de seu anteriormente sempre fechado cenho 


ela ainda não me vê, talvez por escolha, talvez por algum tipo de cegueira momentânea.


os barulhos das buzinas e das contrações metálicas concedem um tom melancólico a cena.


em dias como esse, eu definitivamente odeio meu trabalho.


me deixo observá-la por um tempo, me apegando aos detalhes que ninguém vê da rua abaixo.


além da sua beleza obvia, percebo em seu sorriso algo diferente, talvez indecifrável.


finalmente, a deixo ouvir meus passos, me apoiando no parapeito, ao seu lado.


seu sorriso some no momento em que seus olhos caem sobre mim, seu rosto se contorcendo milimetricamente, evidenciando sua surpresa em me ver.


se eu fumasse, este seria um bom momento pra se acender um cigarro. 


forço um sorriso, tentando ser simpático.


o seu rosto assume novamente o caráter fechado de anteriormente.


ela me dá um aceno de cabeça, palavras não são mais necessárias.


ao me ver, Clara já soube, ela não iria mais precisar pular.   

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