na caverna

Monday, March 09, 2009
Posted by UD

a posição era a de sempre, encolhido contra o canto, joelhos abraçados, cabeça levantada, olhos abertos



a rocha fria lhe feria as costas, já repletas de estrias e ranhuras, encobertas pela total e constante falta de luz.


o ar era úmido e o cheiro era denso, com pedaços de morte que remetiam ao futuro.


ele passava a maior parte do tempo ali, se deixando perceber o pouco que existia em seus arredores, dedos abertos, língua pra fora, nervos atentos.


quando se passa tanto tempo no escuro, aprende-se a ouvir com os olhos e a ver com os ouvidos.


cada mínimo ruído lhe era perceptível, amplificado por suas relativamente novas sensibilidades, resoando dentro de seu cada vez mais vazio crânio.


em seus tímpanos a luz do sol contra o outro lado da parede de pedra produzia um som constante, como o de uma cigarra.


a ocasional lufada de ar produzida pelo fechar e abrir de celas no corredor a frente lhe chegava como inúmeros prismas de cores diversas, formando infinitas espirais dentro de suas totalmente dilatadas pupilas embranquecidas. 


o cheiro roto que vinha do prato diário de comida que lhe era enfiado por mãos sem rosto em um buraco na porta de ferro, o remetia aos horrores que havia presenciado.


ele foi o primeiro a escutar.


um ruído nunca antes notado, vindo de longe, uma espécie de assovio, constante.


o som se aproximava, os cortes no vento já podendo ser vistos, surgindo como fogos de artifício de coloração vermelha aos seus olhos-ouvidos.


o cheiro de sulfato, só veio depois.


não soube ao certo o que aconteceu.


sentiu fisicamente o chão tremer e a parede cedeu, com um estrondo cataclismico, a um balaço de ferro que lhe pulverizava as ligações tão bem calculadas por engenheiros a tempos atrás.


o que veio a seguir, além do supra citado odor de sulfato, foi uma luz ensurdecedora.


seu ruído era igual ao de antes, mas multiplicado por mil, fazendo com que o canto da cigarra o envolvesse em uma atmosfera de temporária confusão de pensamentos.


os olhos não suportaram tal ferocidade incandescente e se cerraram automaticamente, deixando-o novamente na escuridão, desta vez temporária e orgânicamente voluntária.


quando finalmente ousou abrir as pálpebras, sentiu-as queimando por alguns segundos, antes de finalmente criarem em seu cortéx central, a figura de uma imagem.


uma imagem iluminada, branca como o nada, dolorosa como um corte, linda.


descorria a sua frente o retrato da liberdade.


voltando a ver com os olhos e a escutar o clamor distante de um exército com os ouvidos, se permitiu sorrir.


esfregou o rosto com as costas das mãos e se deixou contemplar o imenso campo esverdeado que se desdobrava a sua frente, de onde podia se situar em um plano mais alto que o de diminutos soldados vermelhos surgindo ao horizonte.


deixou de ouvir por um segundo, desnorteado pela incrível beleza do que via se desdobrar a sua frente.


foi então que, em meio a tal cena, um pequenino ponto negro lhe surgiu, um pouco a esquerda.


o ponto surgira derepente, e crescia de tamanho de maneira alarmantemente rápida.


só quando seus atos eram inúteis foi que concedeu ao nem tão pequeno assim ponto, o caráter de balaço.


percebeu em um segundo que seu destino estaria traçado.


se permitiu um sorriso solto, abrindo os braços magros para receber seu final inesperado.


agradeceu sinceramente aos caminhos incertos por está última imagem que levaria estampada em sua retina.


a escuridão lhe confundira os sensos, e a luz lhe iluminava a morte.


de suas pupilas diminutas, duas lágrimas surgiram


uma caiu ao chão quando o balaço lhe afundou o toráx.


a outra continua a flutuar, tão efêmera e duradoura quanto sonhos soltos atirados de uma extensa cratera na parede superior de um antigo presídio.
 

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