Não liga não vai doer, ela disse. São só umas picadinhas de nada, não deve demorar muito. É difícil pensar que isso foi a três dias atrás. Três dias. Sem comida, sem folga, sem banho. Não doi nada, ela disse. E agora tudo que eu vejo são as gotas gordas do meu sangue que caem sujando o chão. Vai te fazer bem, é terapeutíco. Quando se está pendurado de ponta cabeça por muito tempo, suas perspectivas tendem a mudar. Você tenta não dormir, tenta forçar seu sangue pros seus pés. Vamos te cortar a cada 12 horas, pra evitar a gangrena. Do teto, tudo que se quer é um passatempo. Gotas de sangue, moscas, o zumbido da lâmpada. O melhor entretenimento que você pode conseguir está na sua cabeça. Eu poderia matar por uma TV. Mataria pra poder me trasportar, mesmo que por um segundo, pra vida triste de uma miserável da novela. Mataria pra ver o rosto invertido da Gloria Maria anunciando alguma reportagem banal. Arrancaria os olhos de uma criança para poder me deleitar com as gincanas de auditório dos finais de semana. Você tem que se concentrar, tentar entender qual é o seu verdadeiro propósito. Venha descobrir quem você é. Essa era a porra do slogan. Eu vi no panfleto. A verdade está dentro de nós. Quem é o imbecil que escreve essas merdas. Por oitocentos reais o dia eu esperava algo melhor. Uma gota fica presa na minha testa. Ela veio escorrendo lentamente pelo meu pescoço. Passou como uma lesma pelo meu queixo. Quando se mora no teto por três dias sua pele é sensível. Desceu pela bochecha, e agora se recusa a cair, se projetando como uma verruga entre os meus olhos. A primeira coisa que fazem é rasgarem sua roupa. Deve-se livrar de qualquer influência externa. Depois eles te amarram, tomando o cuidado para passarem o nó sobre o seu punho, forçando seus braços para trás. A gota balança, ameaçando se jogar. No primeiro dia eles apagam a luz e te deixam em uma cadeira. Ela balança. Pra frente, pra trás, pra frente, meus olhos suplicando que se deixe cair. No segundo dia, eles acendem a luz, e colocam no seu colo uma carcaça de cachorro semi-digerida. Deve-se entender o destino inevitável. Pra frente, pra trás, pra frente... No terceiro dia, eles te penduram e te cortam. Deve-se ascender aos céus através da dor. A gota finalmente se atira, estourando no chão em infinitas gotículas menores. Faltam mais quatro dias. Quem sabe amanhã eles me trazem uma TV? Deve-se entreter afim de se evitar o uso efetivo de massa encefálica. É, vai ser uma semana legal.
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