o sorriso era franco.
aberto, de orelha a orelha.
quase como um labrador, desses de comercial de ração.
do monitor não se consegue ver bem os olhos, mas eu imagino que estivessem brilhando.
não é todo dia que se vê tanto dinheiro assim.
uma das coisas chatas desse trabalho é isso.
a qualidade dos equipamentos nunca chega próximo da vida real.
mas voltando a ela, o fato é que sorria.
já estava a uns 2 minutos, parada boquiaberta diante da maleta.
seu corpo obeso fazendo a cama arriar, as molas quase tocando o chão.
mas desse ângulo, ela não me parecia muito ameaçadora.
outra coisa que me incomoda são os posicionamentos de câmera.
tudo bem, eu entendo que tenham que estar escondidas, mas de que adianta vigiar se não se tem a idéia clara do que acontece a sua frente.
por essas que eu sinto falta do Elias.
ele era um agente nosso, encarregado do procedimento técnico das vigilâncias por vídeo, ou seja, era ele quem colocava a câmera em posição.
durou uma semana o coitado.
o problema com ele era que fazia faculdade de cinema, estava quase formando se não me engano.
no seu primeiro trabalho, uma venda de drogas em um hotel do centro, ele colocou a câmera em posição.
se ele tivesse feito só isso teria sido uma maravilha, o problema foi que, quando o traficante, um desses imigrantes colombianos, entrou no quarto, ele se deparou com 4 refletores de luz estrategicamente posicionados, todos filtrados com gelatina azul que dava uma tonalidade interessante a cena.
obviamente o meliante fugiu, assustado.
em sua defesa, o Elias disse queria ressaltar a crueza do ato, e fazer a cor dialogar com a personalidade de um traficante, frio e insensível.
tudo bem, o cara era um boçal, mas foi um dos vídeos de vigilância mais bonitos que guardo no arquivo.
enfim, a gorda se levantou, depois de tirar o dinheiro da maleta e colocar em sua cinta liga.
ela saiu do quarto com simulada indiferença.
foi presa quatro quarteirões depois, os agentes interceptadores tiveram de conduzir uma busca de cavidades para encontrar o último maço de notas de cem.
uma coisa boa do meu trabalho é isso, eu nunca preciso conduzir busca de cavidades
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