sobre posse e descriação

Monday, June 22, 2009
Posted by UD

francamente, não sei sobre o que escrever nesse exato momento.


aqui estou, em minha cama, ainda de calças jeans, sem idéias concretas e com uma pungente vontade de criar.

me vem a mente a figura de um mendigo, algum pobre coitado sem dinheiro ou rumo.

me identifico com esse mendigo, que agora já tem barbas grisalhas e sujas do macarrão de ante-ontem. 

como o mendigo, que agora imagino se chamar Valmir, eu também vago sem rota, meus dedos forçando a narrativa, letra a letra.

mas Valmir não quer se mexer, aparece para mim apenas sentado, em um canteiro central de uma extensa avenida por onde outrora passavam carros apressados.

estamos na inércia, Valmir e eu, mas nesse momento ele parece estar tranquilo, contrastando com minha crescente inquietação.

talvez esteja meditando, relembrando os cálidos momentos passados aos braços de sua Carmélia, esposa recém imaginada, que deixou para trás ao se mudar pro centro urbano.

mas Valmir não me parece ser do tipo sentimental, creio que tem planos muito concretos debaixo das rugas e ácaros.

o que me aflige é saber que ainda não os conheço. 

para esse mendigo o destino está na linha abaixo, e a certeza de que ele virá o deixa em paz.

posso até ver o suave sorriso em seus lábios enegrecidos por poeira e piche, ele está calmo, completo, paciente.

para mim sobra a angústia, a ausência, a falta.

Valmir me rouba a paz, me tira o cómodo.

já não gosto mais desse homem, esse velho sem rumo ou porquês.  

por vingança poderia imaginá-lo nu, com as vergonhas de fora em plena madrugada, o frio lhe fustigando a pele.

ou ainda poderia lhe agregar algum vício vexaminoso, como zoofilia ou uma simpatia inerente por republicanos.

mas nada me parece interessar nesse momento.

afinal, qual a razão de se criar um personagem sem enredo? uma vida sem razão?

é, acho que no fundo tenho pena de Valmir.

de tantos escritores que existem no mundo, veio parar logo em um texto meu.

deve ser por isso que se mantém parado.

qualquer sútil movimento pode provocar uma história, qualquer fala, qualquer gesto, pode gerar uma situação narrativa.

mas não, não é isso que ele quer.

já imaginou, ficar preso em meio a uma narrativa solta? descompromissada? mal escrita?

melhor evitar movimentos, quem sabe se algum carro passa e o tire daqui.

mas Valmir não faz por mal, ele apenas tem ambições maiores que ser um pedinte em um blog pouco lido.

eu entendo, seria melhor mesmo deixá-lo ir, conceder-lhe a liberdade.

quem sabe vire um web-hit, cantando ilariê ou outra canção no youtube.

a imagem de um mendigo se divertindo sempre permeia o imaginário nacional, receita certa de sucesso.

mas eu também não posso deixá-lo ir de graça, afinal eu sou o seu criador.

ao menos uma ínfima trama ele tem que deixar pra trás, antes que possa entrar no opala preto que encostou junto o meio fio do canteiro.

Valmir finalmente abriu os olhos, e agora olha pedinte pra janela com vidro fumê.

o opala fica quieto, seu motor ronronando em meus ouvidos.

o vidro desce, produzindo um sorriso esperançoso no rosto do homem, suas esperanças altas novamente.

dois flashes claros são vistos de longe, dois estampidos o seguindo de muito perto.

o corpo do mendigo vai ao chão, o sorriso ainda fixo no rosto.

desculpa Valmir, mas sou muito possessivo. 


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