ultimamente me pego pensando muito na relação de relevância entre forma e conteúdo
até que ponto são complementares?
qual o seu grau de importância em relação ao todo?
o que deve ser priorizado?
obviamente se localiza como vencedor imediato dessa disputa o conteúdo, mas depois de um tempo se percebe o quão equivocada essa percepção pode estar
é bem verdade que meu vô sempre me ensinou a não perder-me em adjetivos, e eu de fato não o faço, sempre utilizando uma quantia máxima de 4 ou 5 para quaisquer descrições que venha a fazer
no entanto, percebo agora que talvez não deveria ter sido tão rígido, uma vez que formalizar o texto em função do conteúdo, ainda sim constitui uma aplicação formalista
por exemplo, eu poderia descrever-lhes uma lâmpada como "um belo bulbo de cristal transparente que produz uma certa luminância agradável e torna aconchegante os cômodos onde é utilizado". Ou poderia apenas dizer "É uma bela lâmpada"
e qual das acima citadas descrições teria mais relevância?
penso que nenhuma, uma vez que deve-se relativizar o contexto de suas utilizações para que se possa ter um tipo de julgamento mais claro.
talvez seja apenas um tipo de delírio que me tenha feito ponderar sobre tais temas, mas os gritos abafados da garota me despertaram uma dúvida pungente
de que maneira, e portanto com qual forma, devo eu terminar este trabalho para que o seu resultado seja simultaneamente significativo e interessante?
os olhos dela me encaram assustados, e eu os poderia descrever como "suaves orbes de sofrimento e medo contido" ou ainda de "inocentemente aterrorizados"
mas a maneira, ao meu ver, parece sobrepor o seu significado nesse caso, uma vez que será a mesma quem irá produzi-lo
a decisão me parece óbvia agora, 567 ml de nitroglicerina em um pote antigo de geléia, deixado aos seus pés enquanto ela se encontra amarrada de pé, nua, braços e pernas abertos pelas correias
em cada lado de seu corpo, frente, esquerdo, direito e costas, uma tela em branco, de extenso tamanho e tecido grosso
os seus gritos se tornam mais altos agora, o som rompendo a barreira da mordaça
o detonador em minha mão, baterias carregadas, o botão a dois milimentros de meu dedo
outra coisa que me intriga são as metáforas
talvez com esse botão eu possa fazer algo que perdure
detrás do vidro de segurança a cena é bem bela
pode ser usada como uma espécie de metáfora irônica
uma vez que o senso comum diz que a vida imita a arte, mas nesse caso, será a morte quem vai criar arte
ao apertar o botão os orgãos vitais e as vísceras da garota preenchem as telas, criando instantaneamente 4 obras de arte, acabando com a existência de uma vida humana em uma fração de segundo
transformando unhas, carne, intestinos, nitroglicerina, ácido clorídrico, e gritos em um significado maior
uma obra completa, com três atos distintos que se complementam de forma imediata aos olhos de um espectador
contexto, maneira, contéudo, tudo em quatro telas, tudo em uma morte
na semana seguinte, os quadros são vendidos em um leilão, todos elogiam meus dotes expressivos, meu plano flui com perfeição
descanse em paz verônica
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