algo de errado

Wednesday, April 29, 2009
Posted by UD

existe algo de muito errado em tudo isso



tudo está tão quieto, sereno demais.


onde estão os rangidos, os gritos, os apelos do metal que se contorce, os sussurros do ventilador?


talvez eu esteja dormindo.


é eu estou dormindo, nem o assoalho faz mais o barulho de sempre.


isso é bom, sonhar assim, as coisas ficam mais bonitas em sonhos.


eu posso até sentir um calor vindo das paredes, algo morno, quente, seguro, e o cheiro... o cheiro é...

não, eu não estou dormindo, o cheiro de cola ainda é forte, nenhum sonho consegue reproduzir esse cheiro.


a cama esta vazia, arrumada, idêntica a cama de ontem.


alguma coisa não está certa.


as dimensões parecem corretas, tudo milimetricamente como deveria estar.


mas algo mudou, eu sei que mudou.


o quadro ao canto está de cabeça pra baixo, é isso.


não, espera, ele está do jeito certo.


eu odeio Pollock.


será que o quadro está certo?


merda vou ter que ligar pra Valéria, 


ela adora Pollock.


foi ela quem me deu o quadro, aquela vadia.


nahh melhor não ligar, ela é bem pior que Pollock.


e também o que eu ia dizer? 


"Alô Valéria, lembra de mim? Então, queria saber, sabe aquele quadro do Pollock que você me deu, ele tem uma mancha vermelha, você sabe se ela fica pra cima ou pra baixo? Não, é uma mancha grande, um vermelho meio lavado,  fica em um dos cantos.... Eu não sei se é o canto direito ou o esquerdo, vai depender se ela fica pra cima ou pra baixo! É a única pintura que você me deu!  Você não lembra?! Sou eu, o Antônio!!"


definitivamente não é uma boa conversa pra se ter as 4 da manhã.


meu deus, quanto tempo tem que ela não liga pra mim? 3, 4 anos talvez.


mas eu encontrei com ela ontem, não encontrei?


isso, a gente se esbarrou na rua, tomamos um café, ela cheirava a cigarros.


pensando bem, esse quarto está cheirando a cigarros.


tem alguma coisa errada aqui.


a porta do banheiro, ela tá aberta.


a Valéria disse que queria ver o novo papel de parede do meu quarto.


ela alisou minha canela com seu pé,  isso eu lembro.


eu sempre odiei esse gesto dela, faz ela parecer tão vulgar.


o cheiro de cigarro vem do banheiro.


a Valéria sempre foi alérgica a cheiro de cola.


mas ainda tem um cheiro estranho no ar, uma coisa um pouco forte, quase me faz lacrimejar.


merda, tem alguma coisa errada aqui.


eu lembro do meu cinzeiro, eu tinha um cinzeiro de madeira, pesado, tinha sido presente pra Valéria.


cadê o cinzeiro?


é isso, ela roubou o cinzeiro! Filha da puta.


peraí, tem um par de sapatos de salto no canto.


são da Valéria, ela nunca usaria isso se ainda estivesse comigo, sempre detestei mulheres mais altas que eu.


eu odeio esses sapatos, quase tanto quanto odeio Pollock, mas nem perto do tanto que detesto essa mulher.


isso não tá certo.


os sapatos eram brancos.


eu lembro disso por que eu abaixei pra pegar minha pasta na hora de irmos, e os vi. 


são os sapatos mais feios do planeta, pontudos, promíscuos, mas definitivamente brancos


não são meio avermelhados como estão agora.


peraí, não são os sapatos que estão vermelhos.


tem uma poça no chão, ta vindo do banheiro, escorrendo.


a filha da puta entornou vinho no meu carpete?


mas parece ser mais grosso que vinho.


merda... 


tem alguma coisa errada aqui.






















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