me perdoem

Monday, February 02, 2009
Posted by UD

o cheiro era particularmente peculiar.


do tipo que jamais te abandona, sempre re-aparecendo em momentos inoportunos, como quando se está prestes a saborear pela primeira vez um jantar feito por sua sogra.

pedaços estavam espalhados por todo interior do coletivo.

gordura endurecida pendendo dos acentos, pedaços de carne carbonizada grudados ao teto, víceras espalhadas pelas janelas enegrecidas.

a cada passo, o ranger do assoalho fazia meu estômago arrepiar de nojo.

os peritos afirmaram que, a julgar pelas queimaduras no metal, a temperatura dentro do veículo superara os cinco mil graus.

segurava firme o lenço contra meu nariz, tentando não prestar atenção ao ruído viscoso proveniente de alguns colegas ao canto, que regurgitavam seus almoços pela janela.

um perito de baixa estatura e bochechas sardentas me sorria detrás dos óculos fundos, parecendo completamente alheio a massiva quantidade de peças humanas carbonizadas ao seu redor.

franzi meu cenho de maneira firme e lhe devolvi um olhar reprovador, como alguém em sã consciência consegue sorrir em meio uma situação como essa.

ele manteve seus dentes a mostra, me encarando com diversão.

"incrível não?"

me estendeu uma ficha de papel, padrão de cenas do crime.

ao lado do item "causa da(s) morte(s)" estava rabiscado a caneta, inexistente.

"como assim inexistente?"

ele balançou a cabeça de forma divertida.

"pois é, demais não é?"

tive vontade de sodomizar o pequeno obeso com seus óculos desproporcionais, mas após olhar ao redor por cerca de 10 segundos consegui manter a calma.

"eu não estou entendendo."

os pequenos olhos me encararam incrédulos por detrás das gigantescas lentes.

"você ainda não viu o vídeo da camêra de segurança?"

treze horas depois eu não conseguia dormir, encharcado de suor, tentando compreender o que vira.

14:33

um garoto franzino, de aproximadamente 14 anos de idade adentra o onibús, se sentando em um dos bancos ao fundo, mantendo-se quieto, cabisbaixo.

14:54

o onibús está lotado, pessoas se acotovelam conforme o mesmo balança pelas ruas. o garoto sua em profusão, tirando sua camiseta para enxugar o rosto.

15:15

o garoto tenta se levantar, encharcado de suor. ele encontra dificuldades pra se levantar e desiste, apoiando a cabeça no banco da frente.

15:34 

o garoto começa a inchar, ocupando em poucos segundos o triplo do espaço que ocupara antes, fazendo com que as pessoas tentem se afastar, causando confusão.

15:35

o garoto explode em chamas que lambem furiosamente o interior do onibús, derrubando a camêra

15:36

ruidos de estática.


não fora um atentado. 

não fora um incêndio.

não haviam sinais de elementos químicos estranhos.

não haviam sinais de dispositivos explosivos.

causa das mortes: inexistente.

dentro de duas semanas, tudo estava bem.

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