
não que isso seja abertamente discutido, mas existe uma certa concorrência desleal nos praticantes do ato...
é algo velado, quase que egoísta, mas todos gostam de deixar pequenas assinaturas, afirmando nas entrelinhas que são melhores uns que os outros...
devo confessar que por vezes também engajo em tal prática não sadia, e por mais que tento me desprender de meus trabalhos, acabo deixando alguma pista de que aquilo foi feito para me auto-promover ao status de gênio...
é irônico pensar que atos como os que cometo possam ser submetidos a algum tipo de competição...
fato é que todo praticante é anônimo e único, e somente estes acompanham de perto os trabalhos dos outros, procurando sempre o aprimoramento dos seus próprios...
a 3 anos arrumei um trabalho de repórter fotográfico da sessão de crimes de um jornal, primeiramente pra pagar as contas e manter as aparências...
no entanto, me descobri em uma posição privilegiada, onde podia ver de perto as obras dos outros e diagramá-las em planos para posteriormente servirem de inspiração para os meus próprios atos...
por um tempo, fiz grande progresso, passando de pequenas notas ao fim dos jornais a algumas grandes manchetes de primeira página, como a minha tão cara " Assassino Aveludado mata e mutila 6 pessoas"...
pronto, agora eu estava no Olimpo dos profissionais, juntamente com os grandes nomes como "Jack o estripador" e "O zodíaco"...
eu finalmente tinha adquirido, após árduos meses de trabalho, um nome para encabeçar e unificar meus futuros atos...
tudo ia incrivelmente bem para o meu ego, até uma manhã de sexta feira, quando o editor do jornal me enviou para fotografar um trabalho em um armazém nos arredores da cidade...
a manchete do fim da tarde, que encabeçava uma fotografia que eu mesmo havia tirado era a seguinte " Anjo aterroriza a cidade"...
a maioria dos profissionais era geralmente nomeado de algo como "O demónio da rua escaldas" ou "A besta dos subúrbios", mas este havia sido chamado apenas de "Anjo"....
e o nome fazia perfeito sentido...
naquela manhã, eu me encontrei com lágrimas nos olhos enquanto observava um trabalho que não podia ser descrito de outra forma a não ser "obra prima"...
mal consegui segurar a câmera para bater a foto, de tão impressionado e emocionado que estava...
Anjo havia matado e esfolado 18 vitimas e as deixado penduradas ao teto pelos longos tendões das costas, fazendo com que todos os corpos sem pele ficassem exatamente na mesma posição, cabisbaixos e com os braços abertos, como se desfrutassem um agradável vôo, propelidos por asas imaginárias...
era mais que um simples trabalho, era mais que perfeição...
tinha conceito, tinha uma história, tinha visão...
foi apreciando de perto a obra que compreendi pela primeira vez a definição Kantiana de sublime, que até hoje, não me sai da cabeça...
fazem 2 anos que a presenciei, e desde então o Anjo nunca mais nos agraciou com sua incrível sensibilidade...
nunca mais me deparei com ninguém que viesse a entender a arte tão bem quanto ele...
por mais que tentasse, os meus atos perderam o sentido para mim...
nunca conseguiria me equiparar a tal maestria divina...
o toque do Anjo me transformou em um espectador feliz, e o "Assassino Aveludado" nunca mais encabeçou manchetes novamente...
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