
era por volta das quatro quando senti algo pingar do teto em meu antebraço...
dormia profundamente, e o líquido cadente me despertou de forma súbita...
não mantinha muitos bons laços com meu vizinho de cima, mas devida as altas horas da madrugada, resolvi esperar e conceder-lhe um ato de boa fé antes de recorrer ao meu sempre útil esfregão do silêncio...
após vinte minutos de relativa paz, mais uma gota me atingiu em cheio, desta vez no nariz...
outra me caiu no travesseiro e não mais conseguindo ser tolerante levantei-me com indignação...
acendi a luz e devido a cegueira proveniente da ira momentânea, comecei a golpear furiosamente com o cabo do supracitado esfregão o teto do meu diminuto quarto...
ao invés de solucionar a crise, minhas tolas ações acabaram por intensificar a profusão com a qual o líquido caía, formando uma pequena e fina linha que me banhou o rosto...
somente neste momento consegui analisar de forma racional a situação e perceber a sua consistência...
era viscoso, tal como melado, e tinha uma coloração avermelhada escura...
em choque, caminhei até a cozinha e utilizando-me do interfone chamei o porteiro...
3 horas mais tarde, estava trajando meus confortáveis chinelos acolchoados e bebendo um terrível café de máquina enquanto prestava depoimento na delegacia...
os detetives encontraram no apartamento de cima, nada além de uma extensa poça de sangue...
nenhum corpo, nenhum sinal de luta...
nada...
após uma semana, eles concluíram que não havia sido cometido crime algum, uma vez que nenhum corpo fora encontrado...
mas eu não estava disposto a deixar este caso de lado, afinal o senhor de cima não me era caro, mas ainda assim, era meu vizinho...
comecei a traçar padrões mentais e diagramas de ação e após 3 semanas de extensa investigação cheguei a plena conclusão de que o criminoso não podia ser ninguém mais que a senhora Alvareza, vizinha de frente do senhor vitimado...
avistei-a mal-falando o falecido para o porteiro, e pude então relembrar as conversas soturnas e ameaças irascíveis que havia trocado com o tal senhor em ocasiões anteriores...
relatei minhas conclusões ao delegado, mas por alguma razão o homem não me levou a sério, me sorriu detrás da pequena mesa, dizendo que nada podia fazer...
decidi tomar providências para punir com meus próprios meios a senhora Alvareza...
encontrei em meu armário uma enferrujada machadinha, e tomado de um profundo sentimento de dever, passei a re-ler "crime e castigo" para que não viesse a cometer os mesmos angustiantes erros de Roskolnikov...
decidi treinar em alguns indesejáveis dos bairros pobres antes de partir para a eliminação da temível senhora...
o primeiro foi debaixo da ponte, acertei-lhe a jugular com um golpe trêmulo, e apesar de não ter lhe decepado a cabeça por inteiro, deixei-a pendurada somente por um pequeno amontoado de pele seca...
afiei o machado e voltei a praticar...
após minha décima quinta vitima, já me julgava apto a executar enfim a minha nobre busca pela justiça...
no dia escolhido, banhei-me com cuidado e preparando-me para sair eis que descubro, mutilado em quatro partes iguais, o corpo do meu vizinho de cima escondido em um diminuto armário no banheiro...
neste momento relembrei que não havia sido a senhora Alvareza quem havia trocado ameaças com o infame senhor, mas sim eu mesmo...
percebi também que havia sido eu enfim o assassino, e que isto então justificava o súbito aparecimento da carteira de identidade do senhor em meus pertences...
re-lendo novamente "crime e castigo" ponderei sobre a nobre decisão que Rodin tomou ao se entregar as autoridades...
após dolorosas noites de insônia, decidi não imita-lo...
essas coisas de nobreza não são tão funcionais fora dos romances europeus...
0 comments:
Post a Comment