re-lendo as cartas de amor que nunca escrevera no colegial....
sentava-se ao chão e se deslumbrava com o suposto sentimento de nostalgia que lhe entupia as veias, fazendo-a sorrir chorando...
a sua frente, nada mais que uma caixa de papelão vazia e um caderno em branco...
suas memórias estavam impressas em nada além de tecido mental...
seu diário, escrito em folhas de vento....
saboreava suas esquecidas amizades imaginárias e se deixava suspirar imaginando por onde andariam...
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o ruído de passos imediatamente a despertou do transe emotivo, fazendo com que rapidamente juntasse seus sentimentos e os guardasse na caixa de papelão, empurrando-a em seguida para embaixo da cama...
emoldurada pela soleira da porta, surge ao corredor a figura de um velho, corpulento e ameaçador...
ele estaca e olha fixamente para a garota, que está sentada a cama, forçosamente estampando no rosto uma expressão exageradamente casual...
o velho se aproxima lentamente, olhando-a com um interesse macabro...
seus olhos parecem sorrir, sarcásticos, e sua boca, levemente aberta, zomba da sua situação...
a garota abaixa os olhos, tímida, respirando cada vez mais devagar, como se esperasse não ser percebida por algum predador...
a porta bate com um estrondo...
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quinze anos depois, já mulher, a garota sorri novamente...
em liberdade condicional, ela finalmente irá poder tirar a caixa debaixo da cama...

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