Paz...

Tuesday, August 26, 2008
Posted by UD


já estava sem dormir a três dias...


no primeiro havia saído as ruas, com um pequeno e sofisticado aparato para gravações sonoras pendurado a sua cintura, com a certeza do sucesso estampada em sua postura...

as coisas não haviam saído exatamente como imaginara...

sua tarefa era aparentemente simples, "gravar o silêncio"...

sua realização no entanto, estava se provando um pouco mais complicada...

em local algum do imenso centro urbano ele conseguira encontrar o tal silêncio absoluto...

caminhara por mais de 13 horas seguidas em uma constante busca fracassada...

nada, sempre havia algum som se propagando no ar, por mais diminuto que fosse, sempre algum ruído se fazia presente nas linhas do aparelho...

pombas, motores, conversas, telefones, electricidade, rádios, articulações... tudo conspirava contra seu plano...

no segundo dia havia se dedicado a isolar acusticamente sua casa...

havia vedado os ralos, barricado as janelas, coberto os vãos das portas, tudo para que pudesse enfim, ouvir e registrar  o tão almejado silêncio...

após árduas 20 horas de trabalho, por poucos instantes acreditou ter alcançado seu objetivo...

no entanto, após longos segundos, a linha do aparato começou a apresentar pequenas distorções, indicando que estava captando algum som no ambiente...

aos poucos, foi percebendo ele mesmo ser a fonte dos ruídos...

sua respiração, suas vértebras, seu coração, as suas secreções internas, tudo era captado pelo sensível aparelho...

se deixou ficar por 3 horas contemplando seu fracasso, perplexo...

no terceiro dia, já não mais se importava com a captação do silêncio, queria apenas ouvi-lo de fato...

havia transformado sua cozinha em uma espécie de pequena sala de cirurgias, e aberto em cima do balcão estava um livro de medicina no capitulo sobre o aparelho auditivo humano...

após a devida esterilização ele então arrebentou seus dois tímpanos com um clip de papel...

uma semana mais tarde seu corpo inerte foi encontrado em sua sala de estar...

a garganta estava cortada, e uma carta fora deixada na mesa de centro...

ele havia finalmente escutado o silêncio, mas quando se percebeu não ouvindo seus próprios gritos decidiu se matar...

os vizinhos nada escutaram devido ao perfeito isolamento acústico feito na casa...

a carta tinha apenas uma frase...

"o único silêncio verdadeiro é o interno..."  
 
 

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