O homem e os sapatos...

Friday, July 25, 2008
Posted by UD


Caminhava...
Em seu rosto um sorriso choroso lhe denunciava a incompetência...
O bigode postiço e os labios cor de salmão não se faziam notar debaixo de tamanha arrogância...
suas rugas não eram suas, e as ruas da cidade retorciam-se a cada passo dado...
o cheiro de peixe e lavanda consumia as narinas dos passantes mas a ele nada causavam...

havia nascido ao contrário, e crescia diminuindo em seu caminho, fingindo não se deixar perceber que ninguém o olhava...
sabia não ser especial, mas não se julgava podre, e levava no bolso nada além de um mundo velho e fora da data de validade...
o sorriso denunciava que sua necessidade ia além de um mero olá, ou talvez até mesmo além de um gesto afetivo...

precisava sofrer, era a única rota para que pudesse retardar sua inglória batalha contra os ínfimos aspectos imutáveis de sua inocência transitória...
e de fato sofria, a cada passo, cada agulha no camnho lhe dava um motivo para continuar, fazendo com que as linhas não fossem corretamente remendadas em seu tecido cerebral...

as poucas arvóres que restavam não lhe tomavam simpatia, apenas farvalhavam silenciosas e evitavam seu olhar ocasional...

os pleonasmos e paradoxos de sua infrutífera existência lhe encaravam com rancor, frustradas pela promeça jamais cumprida...
não julgava-se vitma nem réu, apenas caminhava sem se permitir buscar explicações racionais para seus caminhos inexistentes...
não havia muito o que fazer além de andar, comer e eventualmente falar...
e ele ainda não se percebia derivado de si, não aceitava repudiar-se diante do sempre presente fracasso, e continuava a se assombrar pela perspectiva aterradora de um silêncio contínuo....

mas ao fim de um dia normal o sol costumava subir, fazendo descer as indagações e subirem os sapatos...
enfim, ele caminhava;

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